Cougar Town não é para enochatos. Se você gosta de olhar as especificações do vinho antes de abrí-lo, deixá-lo sedimentar a borra em um decantador por diversos minutos e apreciar seu bouquet antes de bebericá-lo pacientemente à procura das nuances de seu gosto, vá assistir a Downton Abbey. E se você é um espectador que necessita de uma escola literária para escolher suas séries, é melhor passar longe também.
Nos minutos iniciais, duas coisas ótimas acontecem: em primeiro lugar, os personagens entram na casa da protagonista Jules e esta quebra a quarta parede ao dizer que sentiu saudade contar histórias aos demais e ao resto do mundo. É um momento fugaz, que não se perde em meta-análise ou se alonga a ponto de tirar o foco da trama em si, que é baseada nas interações entre os personagens. A segunda coisa é o consumo desenfreado de duas garrafas de vinho abertas sem cuidado, sem classe e sorvido às talagadas. Todos tomam em taças, mas uns copos de requeijão antigos serviriam do mesmo jeito. Essa simplicidade meio jeco-americana da série e de seus personagens é que atordoaria o esnobismo dos especialistas em vinhos ou em narrativas televisivas cômicas do século 21. Cougar Town não é brilhante como Community, nem precisa ser para sua apreciação. Só é necessária a atitude certa. Pegue seus copos americanos de ver televisão e curta a viagem.
Depois vem o resto da trama, que se passa uma semana após o casamento de Jules e Grayson. Nada mudou desde então. Exceto que, agora que Travis é um homem, é hora de Bobby contribuir um pouco mais nos aprendizados do filho. Conhecem a máxima seinfeldiana (e, posteriormente, davidiana) de que não se deve haver abraços ou lições ao fim do episódio? Bem, aqui há abraços a cada cinco minutos e uma lição ou outra. E, desta vez, ela é ruim: fuja de seus problemas. Corra, literalmente, se preciso for.
O ajuizado Travis não concorda com seu pai, e tenta fazer Bobby enfrentar seus problemas. Sem muito sucesso, claro. Só que, ao final, provando que a hipocrisia é uma forma de humor tão boa quanto qualquer outra, Travis sai correndo - literalmente - após Laurie indagar a respeito de sua confissão ébria de que a amava no fim da temporada anterior. Demorou, mas lição aprendida. E aqui vai uma para vocês, mulheres, direto dos roteiristas de Cougar Town: homens não gostam de falar sobre seus sentimentos. Aposto que isso é novidade para todas vocês.
Continuando no arroz com feijão das temáticas de sitcom, Jules exagera a respeito de um sonho com Grayson, Andy é tão capacho de Ellie que nunca, jamais, em todo o período de seu casamento, o pobre homem conseguiu fazer número 2 em casa e Grayson não sabe reconhecer a depressão de sua nova esposa, a personagem mais neurastênica da TV americana. Lição número dois, telespectadoras: homens são uns seres bem pouco perceptivos.
Todos esses lugares comuns são toleráveis, pois os personagens da série nos cativam. Bobby é um pai daqueles terríveis: ausente, irresponsável, mulherengo e beberrão. É impossível, porém, não gostar dele, nem por um instante. Mesmo a Jules de Courtney Cox tem ótimos momentos, ainda mais quando se esquece que a atriz tem usado basicamente o mesmo truque há 20 anos.
Ao final, há abraços e uma má lição aprendida. E há o epílogo, que parodia as sequências pós-episódio que mostram relances do que acontecerá no restante da temporada. Engraçadíssima e inovadora, justo quando você está satisfeito com o arroz e feijão e é presenteado com um belo sorvete Haagen Dazs.
Cenas do próximo episódio? Ninguém aprenderá muita coisa, os homens serão colocados mais uma vez em seus lugares pelas mulheres, Travis tentará parecer mais menininha do que já é e com certeza haverá uma partida de Penny Can, pelos velhos e bons tempos.
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